quarta-feira, 18 de janeiro de 2012

Estupros muito além dos Estúdios Projac: Angela II

Enquanto Sônia Abrão e Cia. discutem se houve um caso de estupro ou não entre Daniel e Monique, participantes do Big Brother Brasil 2012, na casa 'armada' dos Estúdios Projac, da Rede Globo, dez mulheres - ignoradas pela mesma mídia que se escandaliza com os casos do BBB - são estupradas no Estado do Rio de Janeiro; triste estatística nacional de 2011 que só tende a crescer diante da impunidade que impera em nosso país. Estupro é essa tevê que penetra em nossos olhos com tanta bobagem e estupidez, ignorando os perigos reais que passamos na selva desumana de nossas cidades. 
Lamento, leitores, o tema do poema de hoje não traz o reality show que as televisões tanto divulgam com fervor; ao contrário, ele fala sobre a realidade triste e urbana de nossas violentas cidades, um poema do meu quarto livro "O último adeus (ou O primeiro pra sempre)" (2004), preocupado com as vítimas reais da violência assassina de tarados e maníacos (como o serial killer Francisco de Assis Pereira, vulgo Maníaco do Parque, que estuprou, torturou e matou pelo menos seis mulheres e atacou outras nove no ano de 1998, enterrando suas vítimas no Parque do Estado, no sul de São Paulo). Dedicado às Angelas, que, diferentes das fotogênicas e midiáticas BBBs Moniques, são vítimas anônimas dos marginais que passeiam impunes por nosso país:


Angela II (A chuva)


Ele te pediu fogo...
Tua mente distraída nem percebeu
Que ele não tinha cigarro: "Não, não fumo"
Então ele tomou de ti...
Teus seios imaculados... agora tão marcados...
Tua mente virgem... agora corrompida...
Confusa... aflita...
Ele não trouxe flores... preferiu destruí-las...
Ele não fez declarações... preferiu arrancá-las de tuas cordas vocais...
Gritos...
O príncipe encantado... assassinado pelas trevas de um plebeu insano...
Teu sonho... estuprado por um fantasma de carne eternizado na sombra de teu desespero...
Silêncio...
E ele está muito decepcionado...
Não pensou que sangrarias tanto...
Estás na lama seca... confundida pela realidade pornô das noites urbanas...
Tuas mãos não tocam mais o chão... 
                    Tua alma sobe aos céus...
                                    livre...
                              triste...
                     retalhada...
               Chuva...
Os anjos choram
Pois não podem mais contar com tua presença pra existirem no mundo real...


- Cada chuva que cai do céu
É uma pureza perdida na terra...

2 comentários:

  1. sobre sua introdução Carlos.
    "Estupro é essa tevê que penetra em nossos olhos com tanta bobagem e estupidez, ignorando os perigos reais que passamos na selva desumana de nossas cidades. "

    concordo com voce Carlos. Existe estrupro maior que esse midiático com as belas bundas, seios, silicones, danças eróticas que instigam ainda mais a imaginação desses doentes, dementes sexuais?

    Lembro de uma coisa que uma professora minha uma vez disse em resposta a um discurso religioso inflamado de uma aluna. Ela trabalhava numa ong em que recebia meninas e meninos vítimas de violencia sexual. No primeiro dia em que ela colocou os pés na ong teve que se deparar com uma menina de 8 oito que havia sido estuprada tão ferozmente que precisou de cirurgia não apenas para estancar as hemorragias multiplas, mas para reparar todos seus orifícios. um relato tao chocante para mim, que não permiti que meu filho ficasse com mais ninguem e levava ele para as salas de aulas junto comigo, só de lembrar do horror que essa criança houvera sofrido.

    como falar de Deus nessas horas, senão quando a fome está aplacada e as chagas pelo menos com balsamos não é mesmo?

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  2. Quanto ao teu poema.

    O que dizer meu amigo, senão que estou petrificada com tal beleza, embora lúgubre. "- Cada chuva que cai do céu
    É uma pureza perdida na terra..." - isso é dos melhores gran finale que já presenciei. Não sei se lhe dou os parabéns ou choro contigo, descarrego as lágrimas amargas dessa nossa idiotia social.

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