segunda-feira, 26 de dezembro de 2011

Verse essa canção: Um poema de "pouca vogal" e muita esperança para "Depois da Curva"


A chuvinha melancólica de hoje me leva à estrada retrospectiva deste ano.  A revolta das águas em janeiro feriu a região serrana do Estado do Rio de Janeiro e, há pouco, atingiu mais uma vez o Sul do Brasil e diversas cidades de Minas Gerais. E a chuva continua a tocar sua guitarra insensível (veja esse meu poema georgeharrisoniano no link: http://diariosdesolidao.blogspot.com/2011/09/george-harrison-e-eu-enquanto-chuva.html), a chuva não traz mais alívio imediato... Em razão do aniversário de Humberto Gessinger no dia 24 de dezembro, minha namorada, fanática pelas composições desse artista gaúcho, ouviu incessantemente as canções dele com a banda Engenheiros do Hawaí e, atualmente, com o Pouca Vogal. 
As melodias de Gessinger e Leindecker foram seduzindo meus ouvidos e, somadas à chuva que cai esporadicamente, me fizeram compor o “Verse essa canção” de hoje inspirado na música “Depois da curva”, hit do duo Pouca Vogal (por sinal, a agenda de shows do grupo neste ano privilegiou a região Sul e cidades de Minas Gerais – ambas as regiões, alvos de chuvas ferozes e insistentes).

A canção original vale a pena ouvir, por isso deixo-lhes um vídeo e o link do Pouca Vogal, pra quem não conhece esse ótimo projeto musical de Gessinger e Leindecker: http://www.poucavogal.com.br/. Na minha releitura da canção, um eu lírico tenta aliviar o desespero de um desabrigado pela chuva (como Virgílio guiando Dante no Purgatório na "Divina Comédia"),  levando-o pra além da curva da fatalidade crua, pra mais perto da esperança e poesia, elementos (quase sempre) mais sãos e menos cruéis que a ferocidade insanamente mortífera da vida real. Espero que gostem, espero que a chuva, pelo menos, diminua os acordes apocalípticos de sua guitarra insensível.



amanhã, talvez
esse vendaval faça algum sentido
dá pra se dizer
qualquer coisa sobre todo mundo

Ele pisa sobre as ruínas com um estranho sorriso. Enlouquecera? Talvez, talvez a loucura dê sentido pra falta de sentido. O vendaval de outrora é apenas uma brisa reflexiva que desliza em seu rosto de agora. Penso que sua loucura é uma esperança insana e bonita; posso ver e dizer qualquer coisa sobre ele, agora que seus olhos só olham pro novo horizonte, pra além do antigo universo destruído.

por hoje é só
vou deixar passar a ventania
talvez amanhã
vento, vela e velocidade

Mais uma vez a brisa suaviza a tristeza em seu estranho sorriso (a ventania levou suas alegrias sãs). Por qualquer motivo, seus olhos marejados velejam nos relevos de uma velha praia invisível, acessível na certeza esperança de um amanhã impossível de prever. Veloz, meus versos veleiros o visualizam no vento vil do volátil talvez...

mar azul
céu azul sem nuvens
logo ali… depois da curva
ali, logo ali, ali… depois da curva

E, depois da destruição, tudo é azul, cruelmente blues, o rosto dele se curva pra além da estrada, como se lá fosse ali, como se a travessia do purgatório sempre levasse ao alívio impossível. Absorvido por sua esperança azul, eu sigo seus olhos curvados e tento acompanhá-lo pra além do precipício. Me aproximo...

amanhã talvez
esse temporal saia do caminho
dá pra escrever
o papel aceita toda qualquer coisa

E, nos meus versos, o papel resiste ao temporal que o destrói. No meu papel, ele encontrará um novo caminho, um paraíso perdido que a chuva não corrói.

por hoje é só
vou deixar passar a tempestade
talvez amanhã
água pura e toda verdade

Ao seu lado, sinto a solidão que chove em seus olhos feridos pelo temporal. Ao seu lado, eu espero que a tempestade acabe e que o amanhã traga uma água menos suja e menos irreal.

mar azul
céu azul sem nuvens
logo ali… depois da curva
ali, logo ali, ali… depois da curva

E, ao seu lado, agora eu também vejo um sorriso além da estrada triste e nossa insanidade desobstrui as pedras cruas que machucam a curva; sim, vamos atravessar!...

ali, logo ali, ali… depois da curva
ali, logo ali
eu vi, eu vim, venci a curva

Estamos passando, sobrevivente da chuva, e a insanidade é a senha da sã salvação. Além das ruínas, depois das tristezas do temporal, passamos as pedras, só mais um salto lírico, louco companheiro, e sua nova casa está aqui, nós a encontramos, além da realidade turva, no azul sem blues da poética loucura. Utópicos, vencemos a curva e ali está ele sentado no sofá de sonhos, sem dor, salvo da total destruição. Ali está ele sorrindo feliz nos meus versos de ilusão...


Um comentário:

  1. kkkkkkkkkkkkkk, não diga que o copiei, não será verdade, pois postei algo antes de ler o seu blog, não é poético como o seu, mas bem semelhante no conteúdo. Acho que não será somente nos dois que pensamos em algo assim, tem um monte de loucos como nós dois rsrsrsrs

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