quarta-feira, 28 de dezembro de 2011

Solidões compartilhadas: O "Ensozinhamento" de Roberto Siqueira


Quem compartilha suas solidões poéticas conosco é um dos poetas valencianos que mais admiro: o grande Roberto Siqueira, frequentador ilustre do grupo poético do facebook “prana puro” e autor de diversas obras-primas poéticas, publicadas em livros artesanais, produzidos pelo próprio escritor (guardo em minha cabeceira poética, parte dessa obras, presenteadas pelo próprio Roberto – entre elas, destaco a que possui a capa produzida pelo fantástico artista plástico Henrique Laurindo, e o romance “Mergulho”). A trajetória literária de Roberto Siqueira, jamais publicada em livros de formatos formais (talvez ele saiba que seu imenso lirismo não cabe nos formatos editoriais tradicionais, preferindo compartilhar suas obras apenas com amigos e leitores escolhidos por alguma seleção caoticamente embriagada de visão poética. Lembro-me que, uma vez, Roberto me disse que não queria que seus poemas fossem analisados/avaliados por artistas que ele detestava, fato que talvez lhe causaria náuseas de sua própria arte), a poesia de Roberto Siqueira me foi conhecida em contato direto com o autor; ele já despontava com seu obscuro opcional brilho poético e eu era um fedelho poeta (mesmo jovem, um poeta iniciante sempre será um fedelho, mesmo que não admita) em bate-papos filosófico-poéticos com Roberto Siqueira, de bar em bar, a cada noite que nos esbarrávamos uma dose a mais de literatura, álcool e solidão coletiva (sim, grande parte de nossas conversas poéticas me inspiraram material para a concretização do meu sexto livro “Diários de solidão: Quando a ausência faz companhia”). Eu não poderia jamais encerrar o ano de 2011, sem uma postagem compartilhada com a Pessoa de Roberto Siqueira (ou o Roberto Siqueira de Pessoa ou o Roberto Siqueira em Pessoa) e aí está uma solidão coletiva, com aplausos líricos de todos os fã-náticos da literatura mais pranapurada do universo (exageros nos elogios para a obra poética de Roberto não são hipérboles, e sim eufemismos, pois meu muito parece muito pouco depois que leio seus fascinantes textos):    

ensozinhamento

Até a aprendizagem é um consolo,
escolhemos para compreender
o que nos reconforta, o que tem a ver
com o nosso caso.

Não tenho uma ilha,
uma terra isolada, como Neruda.
Drummond também foi fazendeiro do ar,
Pessoa, guardador de rebanhos do interlúdio,
eu parei de escrever, como Rimbaud,

Aprendi, me acariciando,
que sou mutuário da preguiça,
nem pior nem menor por isso.

Por isso é inútil o grito, a porrada, a opressão,
porque a gente escolhe o ouvido,
a revolta e a participação.

Eras de solidão.
Toda mudança é interior,
por fora é casca, cosmético, impressão.
A gente não fala para ser ouvido,
mas entendido e permitido
em algum ponto.
Não bem um aplauso,
mas mesmo uma permissão, uma autorização
para um financiamento de uma pesquisa.

Pesquisamos o que completa o nosso caso,
acertamos, lustramos
a nossa terra, a maneira pela qual
as coisas seriam perfeitas
sob o nosso entendimento
mais prazeroso e confortável.

Mas cada heterônimo é um universo,
cada pesquisa é única,
todo proveito é específico.
Não conseguimos nos confortar juntos,
não estabelecemos o que seja nosso,
o que seja nós,
o que seja a rede, a trama
em que cada nó, cada ilha vive
a fazendar, a guardar, a mudar, a imprimir
pesquisa sobre consolo.

xxiii.ix.xi


Um comentário:

  1. Minha alma ultimamente anda fechada, não sei se para balanço ou por sei lá o que. Mas como não me senti forçada a abrir umas frestinhas para deixar entrar um título como esse "ensozihamento", como interpretá-lo? acho que não devo fazer isso, vou apenas considerar como uma relação durável comigo mesma ou pelo menos enquanto me suportar.

    Como não ver na poesia uma chave para abrir as portas do nosso mais profundo eu, esse mundo desconhecido e, por muitos, ignorado. Não sem razão de ser, pois nem sempre estamos dispostos a aceitar o que somos, nossa natureza, nossas imperfeições, nossas mazelas e tantos outros atributos que consideramos vergonhosos se expostos. Entrentanto, esquecemos de exaltar nossas qualidades. Também deveríamos levar em conta que nossos defeitos, podem em alguns casos, ser nossas maiores qualidades.

    Refletir sobre nesses versos: "Toda mudança é interior,por fora é casca, cosmético, impressão.
    A gente não fala para ser ouvido, mas entendido e permitido em algum ponto.", me levou a crer que ser politicamente correto, é uma moda que em breve sairá de moda e substituiremos rapidamente, na mesma velocidade de um piscar de olhos por algo que esteja mais em voga no momento.

    como não pensar que a poesia é universal, mas ao mesmo tempo algo que só tem sentido na dimensão individual? É nesse âmbito que ela cria vida, que é compartilhada, que é sentida e, melhor, nunca sentida do mesmo modo, sempre multipla sendo una em si mesma e para outrem. Querem mudo mais fantástico e dinâmico que esse: o da poesia que se configura em pedaços de alma que se aglutina, magicamente em alguns seres, no instante da leitura, trazendo-lhes colorido a vida?

    Enfim, acho que minha alma é mais sábia, pois se cala, enquanto eu derramo toda essas doideiras em seu blog meu amigo.

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