sexta-feira, 9 de dezembro de 2011

Minhas aventuras com a Civilização Maravilhosa: Eu selvagem engarrafado


        Estreio hoje uma nova coluna no blog, cujo nome será o visto acima – “Minhas aventuras com a Civilização Maravilhosa” -, em homenagem a uma moça que, no auge de sua arrogância carioca (sei que nem todos os cariocas são assim, mas ela não pertence a uma dessas exceções), uma vez perguntou-me se, na roça de onde vim (ou seja, Barra do Piraí e Valença, interior do Estado do Rio de Janeiro), havia mais civilização que em Teresópolis (segundo ela, a região serrana do estado fluminense também é uma roça, salvando-se como civilizados apenas os pertencentes à capital carioca e alguns moradores dos arredores da Grande Rio). Fiquei pasmo e puto com a pergunta, mas o ar de minha impertinente entrevistadora era respirado de forma natural; ela própria não via em sua pergunta nenhuma ofensividade, considerando a sua dúvida banal e simples. Do alto de minha selvageria caipira, respondi-lhe que os conceitos de civilização dela não eram compatíveis aos meus; afinal, o dela se aproximava da dos povos europeus que viam como selvagens mundanos os seres diferentes deles que conviviam em paz com a natureza e viviam de uma forma mais natural, enquanto a minha visão de civilização prima pela liberdade de ser o que bem entender e poder ir em paz aonde quiser ir, sem medos de assaltos, longos engarrafamentos, etc, tentando, sempre que possível, respeitar o ir e vir e o jeito de ser do seu próximo. Como quase nada disso que coloquei após o ponto e vírgula foi comentado com minha civilizada entrevistadora (refleti tudo isso após o fato e agora são apenas pensamentos ao vento e aos olhos dos leitores), como pouco falei e quase me calei, aceito a característica de não-civilizado que, indiretamente, me foi dada e passo a me comentar como selvagem perante a cidade maravilhosa da civilizada moça carioca.
            Iniciando as aventuras desse caipira selvagem na Civilização Maravilhosa, conto sobre um episódio talvez banal para alguns dos mais graduados historiadores da capital do Estado do Rio de Janeiro, mas que toma proporções históricas para seres clandestinos e/ou estranhos a essa civilização: ontem, devido a um incêndio de um ônibus num túnel da capital, a futura cidade-sede da próxima Copa do Mundo passou por um dos mais monstruosos engarrafamentos da história da cidade. Como o selvagem que vos fala, para chegar em suas regiões nativas descivilizadas, precisa passar pela civilização (a viação de Teresópolis, cidade serrana, onde trabalho e também considerada como roça por nossa moça homenageada, privilegia com muitos horários apenas o itinerário para a Civilização Maravilhosa, me obrigando sempre a seguir essa rota civilizatória, sem direito a vias alternativas caipiras), acabei fazendo parte desse momento histórico. Sim, conheci mais uma vez de perto o monstro engarrafamento da Civilização Maravilhosa, ficando agarrado no seu trânsito, dentro de um ônibus serrano, por 5 horas. Nesse tempo, lembrei-me da historinha da tartaruga que lentamente ultrapassa a lebre arrogante – uma tartaruga impossível já que a população civilizada não cria tartarugas a não ser em zoológicos civilizatórios para turistas selvagens fascinados com os primores do universo urbano civilizado. Lembrei-me de Macunaíma assustado com os selvagens carros. Lembrei-me também de um poema de um poeta de São Tomé e Príncipe em que o eu lírico, depois de contar todas as violências que sofrera, espancado e explorado, pergunta: “Agora que estampaste os primores de tua civilização, eu te pergunto: E agora?” E, durante as 5 horas de engarrafamento monstro, vi minhas possibilidades de chegar à velha rodoviária Novo Rio a tempo de embarcar em outro ônibus que me levasse pra longe da Civilização Maravilhosa se dizimarem, morrerem como as expectativas de uma solução mais rápida de diminuir o volume de carros engarrafados nas estradas civilizadas. Perdi todas as conexões e tive tempo pra me entediar completamente, tive tempo pra me irritar e assumir a derrota, tive tempo pra me desesperar e me acalmar (“não tem jeito...” – e o tráfego cada vez mais lerdo...), tive tempo pra observar um morador da Civilização Maravilhosa que ouvia seu mp3 completamente sereno, como se nada acontecesse – a serenidade no caos é um princípio básico dessa civilização que causa inveja nesse selvagem que vos fala -, tive tempo pra ver uma pastora cancelar seu culto pelo celular, declarar que os demônios estavam no gargalo daquele engarrafamento e descer ao lado de uma favela (outro primor da Civilização Maravilhosa) com toda a paz de Cristo, tive tempo pra ver tudo o que queria e não queria, eu estava apertado, enlouquecido pela vontade de ir ao banheiro, faminto e completamente selvagem e clandestino neste fato histórico banal da renomada civilização carioca. 
        Cheguei na rodoviária muitas horas depois que eu ingenuamente e/ou selvagemente estimava. Me aproximando dela já ouvia os gritos dos taxistas, o corre-corre alucinado, o ar claustrofóbico do centro da Civilização Maravilhosa, não havia mais horários pra voltar pra minha terra nativa e selvagem, não havia remédio: voltei pra descivilizada região serrana. O tráfego agora já volta ao normal, a vida continua...  

2 comentários:

  1. É foda rs rs rs rs rs rs Pelo menos deste caos total nascem ótimos textos!

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  2. Rsrsrs1 Sou tão feliz na nossa selva !!!!! ADOREI!!!

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