sexta-feira, 9 de setembro de 2011

Sedex lírico: Carta a uma senhora poeta


Hoje a noite amanheceu mais fria e pálida em mim, senhora. Me disseste que não sabes escrever, jogaste fora um poema lindo sobre essa angústia que nos atinge e, com ele, levaste à cova da insegurança vários versos que morreram antes de poderem crescer. Enquanto escrevo isso com os olhos caídos, em luto pelos poemas que não te aconteceram, ouço minha vizinha lá fora aconselhar uma amiga: “Tem que pensar pra cima e não pra baixo.” Desconheço o assunto que a levou a tal reflexão, prefiro guardar apenas essa poesia que sua voz, indelicadamente alta e decididamente vigorosa, me transmite sem querer.
Quando tornei-me professor e quis me dedicar a inspirar meus alunos a escreverem, sempre trouxe comigo o sonho louco de Bukowski de imaginar que deveria haver um poeta em cada esquina da vida e, assim, aprendi a ver poesia em quase tudo, pois quase tudo é múltiplo, lírico e singular. A arte salvou minha vida; sem ela, confesso que me jogaria debaixo de um carro, me atiraria no mar ou me tornaria uma pessoa apática, sem gosto pra nada, inutilizada pela própria inexistência. Sei que o ato de escrever não permite que salvemos o mundo, não impede que aviões se atirem sobre prédios inocentes, não traz a cura do câncer, não tira a dor da perda de alguém; mas salva a invisível alma que agoniza, impede que pilotemos tais aviões contra casas que amamos, controla a dor estagnada e mantém vivas aquelas pessoas que se perderam no caminho. E também sei o quão difícil é este caminho que escolhi: às vezes, converso com paredes surdas; às vezes, me sinto ridículo; às vezes, estou muito só... Mas e aquele verso que alguém ouviu e levou pra própria vida, como um urso de pelúcia que, apesar da aparência inútil, conforta a criança que levamos pra cama quando nos ninamos em sonhos difíceis? E aquela febre de encontrar a palavra certa e a impressão de que a Terra toda volta a se mover quando a encontramos? E esse brilho nos teus olhos, senhora, outrora estrela, agora triste fagulha... por que pensas em exterminá-lo de vez? Por que perder tudo isso, por que deixar de escrever?
A vida, na maioria das vezes, é inglória e rancorosa, senhora, e, talvez, por isso, não nos deixe prazer em nossa arte; talvez, por isso, quando escrevemos, o ar parece rarefeito pra tais ações. A vida, quase sempre, nos ignora, senhora, renega nossos talentos e faz-nos esquecer dos diamantes que carregamos nas cavernas de nós mesmos. Me disseste que não sabes escrever, como um planeta dourado que se julga inabitável pra qualquer habitante de valor. Me desculpe os olhos tristes, senhora, mas o que dizes não condiz com teus versos sublimes de lirismo incontestável, nem a vida que sempre carregaste nas palavras vivas de calor e amor. A vida já apaga muitas luzes nos túneis da rotina; não deixes que a tua própria insegurança desfaça a única chama independente que nos restou. Volta a escrever, senhora, por favor...   

3 comentários:

  1. Que texto lindo, nossa, mexeu bastante comigo, acho que porque estou numa fase em que nada parece fazer sentido, minhas palavras não me suprem, minhas ações parecem inúteis, sinto-me loucamente só, às vezes... Tento preencher meu abismo com a beleza da arte, mas até as palavras têm me apavorado. rsrsrs Bj

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  2. É, Elayne, sei como é isso, tanto que escrevi e postei esse texto quase em desespero, como uma necessidade urgente...Há muitas trevas nos tempos atuais, mas é preciso mantermos a vela acesa, por mais que,muitas vezes, o mundo tente nos apagar.

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  3. "O poema essa estranha máscara mais verdadeira do que a própria face." Devido as nossas conversas sobre a origem desse texto lembrei dessa frase do Mário Quintana!bjox

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