segunda-feira, 15 de agosto de 2011

Contos solteiros: "Reunião de amigos"


Nesse Dia do Solteiro, lembrei de um fato que sempre persegue e atormenta o sujeito que carrega tal estado civil: as vozes amigas que nos perguntam quando vamos tomar vergonha na cara e casar. Qualquer sorriso solteiro feliz é frustrado diante de tal inquérito amigo. Lembro-me que às vezes me reunia com os amigos para jogar cartas e beber e sempre a Rosimere, esposa do Teco (que, após casar, retomou o nome de Anderson rs), dava-me um sorriso malicioso e me fazia a pergunta fatal: “E aí, Brunno, quando vai casar?” Tal pergunta não me deixaria tão melancólico se eu quase sempre não estivesse bêbado e envelhecendo diante dela. Um dia, havíamos derramado uma, duas garrafas de sidra mais algumas cervejas, a pergunta fatal se repetiu, mais um sorriso sem graça meu, não tinha respostas para ela, mas foi assim que esse conto saiu e depois foi publicado no “Diários de solidão” (2010):  

Reunião de amigos

Eis a Santa Ceia: vemos passados, prevemos futuros. Uma reunião de amigos é um liquidificador de tempos e emoções (de já vú, não, me desculpe, não vi nada, não o vejo há muito tempo). Cartas sobre a mesa, o velho baralho; jogamos com a história, a nossa história, minúsculos pontos de tédio e solidão nas quatro paredes isoladas da Grande História dos Mundos. E o tempo passa lá fora, o GRANDE, ONIPOTENTE E APRESSADO TEMPO. E a moça ao meu lado quer jantar diálogos de flores, me pergunta sobre casamento. E eu, solteiro e em silêncio, guardo meu sorriso de desespero: serei o messias sacrificado ou Judas, o ingênuo traidor? Maçãs, maçãs nos rótulos das garrafas sobre a mesa, maçãs no rosto, “teus seios duas maçãs” uma canção de Nenhum de Nós, maçãs... símbolos da expulsão do Paraíso? Os deuses da casa trancam a porta do Éden da minha imaginação e me levam ao Juízo Final (te lembras de quando caíste em tentação - ou era de embriaguez?... sabes onde estás? que a vida passa e não fazes nada? que não existe eternidade pra teus atos - ou desacatos? que só o casamento e a dívida externa duram pra sempre?). E agora o tempo passa, o GRANDE, ONIPOTENTE E APRESSADO TEMPO passa dentro e fora da casa... 

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