terça-feira, 30 de agosto de 2011

Poema: "Quando"

Este poema foi escrito quando eu selecionava os textos para o primeiro livro "Fim do fim do mundo" (1997). Eu era um jovem interiorano, sem sobrenomes pomposos, buscando meu espaço na arte em Valença/RJ, uma cidade que não admitia que plebeus como eu fossem capazes de dar opinião, fazendo arte (todo valenciano mais velho que se preza como tal me pergunta se sou da tradicional família valenciana Bruno. Quando respondo que não, recebo aquele olhar de incredulidade - como esse cara quer escrever poesia, se não pertence a uma linha nobre? Passaram-se 14 anos desde meu primeiro livro e ainda passo por isso, mas deixa estar - virou tradição dos donos do poder me execrarem e me subestimarem). Acabei inserindo o "Quando" ao meu primeiro livro e o poema foi elogiado pelo poeta-mestre Moacyr Sacramento, o Moa (padrinho das minhas primeiras incursões poéticas - ele chegou até a traduzir para o castelhano e levar o meu poema para ser declamado em Cuba). 
O vídeo em que declamo o poema, também colocado nessa postagem, foi filmado durante minha participação no Congresso Brasileiro de Poetas Trovadores da Serra/ES, em 2010, após alguns trovadores citarem que o poema livre é uma arte menor em comparação à trova. Pois bem, deixei a réplica a tal soberba em versos, afinal uma coisa que aprendi nesses 14 anos é que a melhor forma de protestar contra algo é intensificando minha escrita, sem me curvar a tais afrontas; posso não ganhar algumas batalhas, mas ganha a arte, vence a poesia e que seja assim pra todo o sempre.


Quando
Quando criaste espinhos
Eu criei uma rosa
Quando criaste o desvio
Eu criei minha casa
Quando criaste a distância
Eu criei o atalho
Quando criaste a dúvida
Eu criei minha paz
E quando construíres o fim
Eu já terei construído o meu recomeço.






Novo texto de Laura Roberto: "Nada mais é do que um retrato escrito"


"nada mais é do que um retrato escrito"
 (Laura Roberto)
[...] E sua vida resumira-se a um labirinto de dor, horror, inquietação e total desassossego [...] Nessa hora, olhara para o céu como quem suplica por misericórdia [...]

segunda-feira, 29 de agosto de 2011

Contos e poemas enfermos, preocupados com o clássico da vida de todo ser humano

O agitado jogo de ontem entre Vasco x Flamengo, da última rodada do primeiro turno do Campeonato Brasileiro 2011, teve todas as emoções que um clássico destes merece: expulsões, reclamações, bola na trave, pressão de ambos os lados, defesas espetaculares, um empate em zero a zero que não ajudou nenhum dos dois times e, até após o jogo, a rivalidade foi mantida: nas entrevistas, cada jogador defendia seu ponto de vista, destacando lances de seu respectivo time e argumentando que a vitória deveria ser do clube que ele defendera ferrenhamente.
Porém foi um fato inusitado, fora dos campos, que mais mexeu com as minhas emoções de torcedor vascaíno: o técnico do meu time Ricardo Gomes passou mal durante a partida, vítima de um AVC. Segundo os médicos do Clube de Regatas do Vasco da Gama o técnico hoje de madrugada passou por cirurgia bem sucedida e continua em estado grave, porém estável.
Mas o acontecimento me relembrou duas situações que passei em minha vida, as quais retornam a minha mente sempre de forma angustiante. A primeira ocorreu na época em que morava com meus avós – foram mais de 4 anos de convívio, enquanto eu terminava a faculdade e trabalhava como operário numa fábrica de papel, foi tempo bastante para admirar para sempre aqueles que me amavam e me consideravam mais que neto - e meu avô Fernando passou por problema parecido ao de Ricardo Gomes. Esse acontecimento em minha vida foi retratado em meu conto “O quarto vazio (ou O quarto e o vazio)”, publicado no livro "Diários de Solidão" e primeiro texto que posto hoje.
            A segunda situação foi quando acompanhei a difícil rotina de minha namorada Juliana, de Zé Ricardo e de seus familiares diante do agravamento do estado enfermo de seu avô, que sempre foi visto entre seus netos mais como pai que como avô.  As idas e vindas a hospitais, o esgotamento das forças do avô de Juliana, toda angústia por uma cura impossível me fez criar um poema – mais próximo de uma letra de música em homenagem ao músico Zé Ricardo – ainda inédito em livro chamado “UTI”, segundo texto que posto neste dia de sol ardente e traiçoeiro (nos dá a ilusão de que a vida é eterna, mas ela não é...).
           Posto os dois textos, desejando que o técnico Ricardo Gomes vença o mais importante dos clássicos, que é a eterna luta do homem pela sua saúde, pela sua vida.
Vamos sempre torcer de coração pela vida e lutar pra que ela sempre vença os inimigos invisíveis, as terríveis doenças!  

O quarto vazio (ou O quarto e o vazio)

Entro em teu quarto. Não estás, sei que não estás. Mesmo assim, te procuro. Tudo arrumado, cada coisa em seu lugar: a cama intacta, o rádio de pilha em silêncio, os discos velhos que não tocam, o aparelho de som que não funciona, a tevê desligada... Estranho – agora percebo – o rádio de pilha está em silêncio porque não se encontra aqui. Talvez levaste, talvez alguém o levou pra ti no hospital. Estou vendo demais: meu coração desarrumado cria ilusões em meus olhos.
É... nem tudo está em seu lugar. Há um vazio. Em todo espaço físico que passo, há um vazio por dentro. Talvez, por isso, Álvaro de Campos escrevia poesias com versos tão longos: para preencher os vazios. Estranha reflexão que trago nessas horas mortas – estranho, eu me sinto estranho. 
Hoje, na faculdade, uma professora rejeitou um artigo meu. Pediu-me uma dissertação; trouxe-lhe um argumento ardoroso, um manifesto agressivo, quase rebelde. Deu-me um sorriso, elogiou minhas colocações, mas explicou-me que a política do jornal acadêmico é atacar os problemas sem ferir os donos (ou políticos?, me perguntei enquanto ela falava) do problema. Me senti um estranho (estranho como esta palavra me persegue), dei um sorriso e parti. Senti saudades dos parentes da roça: eles sabiam dar nomes aos bois.
Mas isso, nada disso eu te contaria (ainda mais agora). Te falaria do meu sucesso, do meu futuro acadêmico. Repetiria tudo que quisesses ouvir, tudo que gostarias que eu fosse... se estivesses aqui. Se estivesses aqui, quereria saber como estás, com vai teu coração. Nada: o quarto vazio. Meu sentimento distante busca uma cama de hospital. Estou enfermo: uma doença estranha entranha em mim, uma dor de vazio. Mas isso, nada disso eu te contaria. Te falaria que estou bem só pra não te preocupar.

UTI

De novo esse corredor
É o retorno do nosso amor
Pra velha cama de hospital

O teto cedendo
Meus passos lentos
Pelas salas, silêncios
Sempre a gritar!
Eles passam correndo
Cego de medo, eu vejo
Você morrendo
Bem devagar...

De novo esse corredor
É o retorno do nosso amor
Pra velha cama de hospital

E eu te espero lá fora
Em frente à praça
Perto do chafariz sem água
Contando as horas
Esperando a tua chegada
E o fim do meu sorriso sem graça

Mas nada!...
Apenas facas
Bisturis
As farpas
E ninguém aqui...
Eu te espero partir!

De novo esse corredor
É o retorno do nosso amor
Pra velha cama de hospital

(E a noite sem luar
Dorme em minha tarde sem sol
Você não vai voltar
Adeus, folia de reis, é o fim do carnaval)

De novo esse corredor
É o retorno do nosso amor
Pra velha cama de hospital






domingo, 28 de agosto de 2011

Alma renovada: os alunos da EJA sempre me salvam da mesma emboscada

Retomo as postagens com a alma renovada! Após uma semana turbulenta e exaustiva, ontem, fui ao Festival de Talentos da EJA do CEROM e da E. M. Beatriz Silva e tive a oportunidade de ver meus alunos da Oficina Novas Letras brilharem numa noite rica em artistas promissores. Foi uma noite mágica e lírica! Sempre que me sinto no dia a dia dando um salto mortal rumo a uma piscina vazia, basta rever meus alunos da EJA para que todas as nuvens negras se dissipem do céu de minha boca; só tenho palavras ensolaradas quando revejo os talentosos artistas do ensino noturno do CEROM. Quando penso que a arte está meio perdida, os alunos da EJA sempre me salvam dessa emboscada. 
Deixo hoje aos leitores o link que contém uma pequena amostra em vídeo do imenso lirismo desses alunos com os quais mais aprendo que ensino:


sábado, 27 de agosto de 2011

Um esclarecimento, às vezes desabafo - Meus (des)caminhos em Valença

Morei numa cidade (e, no meu coração, ainda moro) chamada Valença, município interiorano do sul do Estado do Rio de Janeiro. Mesmo distante dela (passei em concurso público e atualmente leciono Português, em Teresópolis, na rede municipal, oportunidade de encontrar talentos artísticos também na região serrana) mantenho, em eventos, intervenções culturais e participações pelo Brasil afora, o nome de Valença e a única coisa que sempre desejo é estar presente em eventos artísticos em minha cidade.
 O problema de Valença, outrora conhecida como Princesinha da Serra, é o mesmo de várias outras: a cidade é aprisionada por administrações políticas que tentam manter o coronelismo da época do ciclo do café, e este fato dificulta a manifestação artística livre, pois no lugar só se admite que apareçam artistas com ligações partidárias e votos de cabresto. Até agora não contei aos leitores nenhuma novidade e seria muita ingenuidade minha achar que o circuito cultural não estaria algemado em tais grades.
Mas insisto em organizar e participar de eventos artísticos independentes de tais amarras políticas desde 1997 (a maioria destes possuem vídeos e/ou informações na internet), participo de concursos culturais levando o nome da cidade, mesmo não morando mais nela; faço mil horas extras na escola pra poder participar – sem ônus no orçamento da prefeitura - de toda atividade cultural do município. O grande problema é que já tenho 14 anos nessa correria e, a cada ano que passa, os espaços vão sendo frequentemente podados pra que a contracultura, da qual sou um dos representantes, seja excluída e/ou omitida dos eventos. Os representantes de tal política lhe dirão que “sempre há espaços pra todos”, que “sempre lembrarão de chamá-lo” ou “que o convite já foi estendido pra você”, mas as decisões são tomadas de cima pra baixo e me dizem “em off” que minhas participações são condicionadas por um ou outro membro da administração atual e, quando a gente joga isso tudo no ventilador, sempre vêm as ameaças veladas, tentativas de dividir e repartir os grupos artísticos, cancelamento dos eventos e aquela sensação de dom Quixote da arte sempre aparece no espelho quando levanto antes de ir trabalhar.
O fato concreto e mais recente é um evento planejado para o dia de quarta-feira, 28/09 (a data já informa que quem trabalha em outra cidade não é muito bem-vindo). Soube da organização por alguns artistas e amigos (não houve convite oficial, apesar disso sempre ser afirmado), uma série de medidas foi planejada por debaixo dos panos e, ao me manifestar revoltado com tal postura pelo facebook (era a rede social mais popular que eu tinha pra protestar), o meu ato tomou grandes proporções: prós e contras a minha postura, verdades e mentiras sobre a (des)organização (membro ligado ao Jornal Local me diz que o espaço é aberto, enquanto no bate-papo ele sustentará essa posição de forma contraditória, de que o espaço é livre, mas depende do quanto eu ficarei calado e da permissão de fulano e sicrano. Dois dias depois, me informa que já estou oficialmente excluído e que ele só lamenta), chamas de uma discussão que, com o tempo, é sempre apagada por medos e ameaças.
Estamos cheios de amarras e lutamos pela liberdade de expressão e respeito com o movimento artístico local há tempos e, depois de tantos debates, penso que é necessário mais barulho, mais ajuda, porque a situação só piora (amanhã talvez os governantes dirão que tal movimento sempre foi apoiado, que o convite está feito; sabemos como eles sabem jogar a poeira pra debaixo do tapete pra depois jogar-nos fora) – o Arte Valença 2, evento que envolveria um grupo de artistas independentes bem mais amplo, organizado pelo Giovanni (ainda não entendo por que ele está se deixando levar; segundo ele, é melhor a migalha que nada) planejado pra setembro, foi cancelado pra ser substituído por esse evento em que a secretária de Cultura e a sua corja escolhe a dedo quem terá o seu espaço; há 2 anos, o UniVersos Culturais de Valença, outro projeto amplo feito pelos artistas (prefeitura só cedeu o som e o espaço), teve uma edição com sucesso de público, pra ser abandonado, pois a secretária não agendava novas reuniões (ela fica 2 ou 3 dias na cidade; nos outros e, principalmente nos fins de semana, está no Rio de Janeiro), nossos espaços culturais estão literalmente arruinados (visitem as ruínas do Casarão quando vier e perceberão – a Secretaria de Turismo a coloca no guia como se fossem as ruínas da Grécia antiga). Constantemente, fazemos intervenções culturais por nossa conta (participamos dos manifestos dos professores estaduais em greve – há vídeos no youtube -, do Rock Solidário, em prol das vítimas das chuvas da região serrana – pode conferir no youtube também, pequenos shows no Jardim de Cima – tudo com a estrutura de som de amigos, etc), mas, quando o evento é organizado pela Secretaria, somos excluídos ou jogados à margem (se não perseguir os organizadores e implorar, não participa), putz, e eles insistem que fiquemos calados “senão não tem mais nada” ou “senão eu não te chamo” e até quando aceitar fazermos arte curvados, até quando ficar calado (Valença passou até por afastamento de prefeito – ele retornou graças a liminar do STF)? E quanto mais calados ficamos, mais sanções há – prova disso é que, ao encerrar a discussão sobre o dia 28/09, fui oficialmente, numa mensagem silenciosa, excluído do evento.
Já perguntei no facebook e mantenho a pergunta aqui: Até quando fazermos arte calados nas migalhas, como bem afirmou Lucimauro Leite? Preencher os espaços calados e curvados não significa que estamos fazendo arte; significa que estamos fazendo um fundamento muito antigo da física - seremos apenas corpos involuntários  preenchendo espaços vazios. Sempre farei arte, mas não calado, os gritos na chuva continuam.

Encerrando o texto e eternizando a discussão (agora ele faz parte do blog he he), estou de saco cheio dessa palhaçada, estou cansado, mas, repito, não estou calado. Parabéns aos heróis paga paus da manifestação da arte licenciada pela Secretaria de Cultural; que os Podres Poderes continuem manipulando como bem entendem vocês. Abraços do vilão da arte curvada. Nádegas mais a declarar.

Túnel do tempo: Eu e outras províncias (2008)

Vídeo do lançamento do livro "Eu e outras Províncias", em 2008:




"Eu sou da Província
e trago em mim
o seu café forte e esquecido
com seu sabor amargo de bom-humor,
com seu vapor carente,
com sua escuridão barroca,
com seu calor ingenuinamente erótico,
com seus grãos desiguais,
com sua familiaridade poética.

- Eu sou a província que sobrou
quando o café queimou."

quinta-feira, 25 de agosto de 2011

O poeta anuncia o foda-se mais uma vez


Diante da política atual de Valença e diversos fatos que serão comentados amanhã em meu blog, mais uma vez, anuncio o foda-se (nós, artistas independentes, estamos ferrados e só o foda-se pode nos libertar). o poema abaixo será o primeiro do próximo livro "Foda-se e outras palavras poéticas", a ser lançado ano que vem:

A vida é um saco
(Então foda-se)

"Quero que se foda toda essa porra então"
The Zombiez

Não, não encontro a vida...
Onde ela está? Onde ela está?
No gole da bebida que deixei cair,
na maconha que a sociedade fuma mas não traga,
no sucesso da palavra foda-se?
Foda-se, foda-se, não encontro vida nas palavras
(a palavra vida jaz nos dicionários).
Fracasso, destruição, acompanho os fracassos diários:
A vida é um saco!... Então foda-se, foda-se,
coço meu saco
e a vida passa, a vida passa...
Enquanto eu coço, a vida passa:
dívida -- vida, vida, vida ida a vida ainda passa... 
... então foda-se!






quarta-feira, 24 de agosto de 2011

Poema da eterna infância: Areia da praia

Neste dia 24 de agosto comemoramos o Dia da Infância, por isso posto um de meus primeiros poemas, publicado em meu primeiro livro "Fim do fim do mundo" (1997 - edição esgotada), buscando, como Mario Quintana, ser "um desenho de criança... terminado por um louco!":

Areia da Praia


Palavras e desenhos na areia da praia
Castelos de areia salgada
Por mais que a onda insista
Em desmanchá-los
Por mais que o vento insista
Em apagá-los
Continuarei a fazê-los
Continuarei a fazer elos.


O amor é uma palavra 
Um desenho na areia da praia
O amor é um castelo de areia salgada
E eu sou o menino
Que escreve palavras
Que desenha sentimentos
Fazendo castelos e elos
Na areia da praia.

terça-feira, 23 de agosto de 2011

Verse essa canção: "Um novo amanhã no dia 23" - (Sub)versão da canção de Kid Abelha

Meu blog faz um mês de aniversário coincidentemente no mesmo dia em que a cantora Paula Toller comemora mais um ano de vida. Para celebrar os dois acontecimentos, resolvi fazer o “Verse essa canção” com a música “Amanhã é 23”, hit da Kid Abelha do CD “Tomate” (1987).
Eu era um moleque introspectivo e gordinho, cheio de sardas na cara e muita curiosidade na cabeça, quando tive oportunidade de ouvir a canção pela primeira vez. Mamãe tinha uma fita K-7 da banda (“ah! Que saudade da minha infância querida/Que os anos não trazem mais”, como diria o poeta Casimiro de Abreu) e, apesar de todo cuidado e ciúme dela com tal objeto musical, eu costumava sequestrá-lo da gaveta do quarto dela e ficar ouvindo no aparelho de som Philips da sala. Gostava da música “No meio da rua”, mas era a canção “Amanhã é 23” que me intrigava; eu era um pivete tentando compreender o significado dos versos daquela canção e tentando entender por que a melodia me encantava tanto. Não sabia muito, mas ouvia mesmo assim (uma vez a fita ameaçou embolar, fato que quase me gerou pânico, pois sabia que se tal objeto fosse estragado, o causador do estrago pagaria o crime com uma sentença de uns 10 anos de castigo sem condicional. O que me salvou foi a rapidez em desligar o aparelho e a agilidade de usar uma caneta Bic para reajustar a fita – quem é da década de 80 sabe como se desenvolve tal operação). O fato de a música tocar numa novela que continha personagens sósias enchia mais ainda a sua estrutura musical de mistério para mim... Só um tempo mais tarde fui construindo os sentidos da canção, algo como um eu lírico pai diante da jovem filha crescida.
Pois bem, o tempo passou, a fita K-7 arrebentou, mas a música continua nas rádios, no meu cantar distraído, a música continua construindo sentidos (hoje, mais velho e poeta, tenho mania de recriar, torcer e contorcer a multiplicidade lírica das canções que ouço). Segundo Paula Toller, “essa música é sobre a melancolia da distância entre pais e filhos, do ponto de vista dos pais. Usei meu aniversário como data-base, mas não fiz a letra "para" uma pessoa em particular, e sim para todas as pessoas”. Ao ler esse depoimento da cantora e compositora, tomei a liberdade de construir uma nova versão pra música, lembrando que o “Verse essa canção” não busca as versões literais das canções versadas; ao contrário, essa coluna busca (sub) verter positivamente as músicas homenageadas, construindo um novo sentido pra composição (a ideia é somar significados, explorar a multiplicidade de interpretações, manter as artes da escrita e da música vivas). Hoje, quando ouço a canção, lembro-me da reação pasma de meu pai, sobrecarregado com a visão tradicionalíssima da família – visão esta que ele pretendia manter nas próximas gerações -, diante da confissão de meu irmão, quando este declarou-se homossexual. Que os autores da música original Paula Toller e George Israel me perdoem a ousadia, mas a escolha pesou também porque meu irmão adora as suas canções, e juro ter tentado caprichar nessa (sub) versão lírico-musical:

As entradas do meu rosto
E os meus cabelos brancos
Aparecem a cada ano
No final de um mês de Agosto...

Meus olhos no espelho do armário aberto reconhecem as rugas do século XX. Sinto a poeira do tempo tingir meus cabelos com tons de neve. É fim de agosto, o inverno está passando e as flores da primavera abrem prematuramente seus botões, antecipando perfumes que eu desconhecia.

Há vinte anos você nasceu
Ainda guardo um retrato antigo
Mas agora que você cresceu
Não se parece nada comigo...

Olho para as fotos antigas, guardadas no armário outrora trancado... Meu filho era um menino sensível e silencioso queimado pelo sol de verões passados. Agora, no quarto em penumbra, vejo um jovem inquieto e desesperado, atirando-me palavras incontidas, revelando um presente que minha tradição não consente... Todos os planos pensados para o menino são projetos frustrados por esse jovem ao meu lado... Meus olhos de futuro presos ao passado veem um novo mundo, diferente, desfigurado... Sou um pai ausente ou um ancião despreparado?

Esse seu ar de tristeza
Alimenta a minha dor
Tua pose de princesa
De onde você tirou...

Os olhos tristes desse jovem ao meu lado sorriem para outros homens, o coração dele bate descompassado para meu coração ultrapassado... Há uma princesa no castelo que ele carrega no corpo de príncipe enfeitiçado e tento conter meu rancor, meu reino de varões artilheiros desmoronado por segredos de fadas revelados. Minha dor é não entender os amores do jovem ao meu lado.

Amanhã! Amanhã!
Amanhã! Amanhã!...

Meu Deus, tento me convencer, meu filho é homossexual, isso é normal, então por que meus olhos enrugados de contos passados não param de enxergá-lo como sapo?

Amanhã é 23
São 8 dias para o fim do mês
Faz tanto tempo
Que eu não te vejo
Queria o seu beijo
Outra vez...

O relógio do quarto me aborrece com seus ponteiros apressados; preciso olhar pro jovem ao meu lado, preciso entendê-lo, preciso abraçá-lo... Meus músculos cedem ao meu desespero antiquado – nunca imaginei que necessitasse de tanto esforço pra dar-lhe um afago -, beijo seu rosto sem asco, escondo no corpo um choro engasgado... De volta ao lar, é meu filho outra vez, seja como for, é sempre bom estar novamente ao seu lado.

Poema em estado de choque: Dezesseis anos

Ontem, participei de um debate virtual inflamado no twitter que envolvia Tico Santa Cruz, @rock de verdade e vários outros. A polêmica foi gerada devido a um vídeo, postado e justamente execrado pelo vocalista da banda Detonautas Roque Clube em seu blog (quem tiver estômago pra ver o horrendo vídeo, segue o link do blog: http://bloglog.globo.com/ticosantacruz/#). O vídeo apresenta cenas de adolescentes dançando, de forma abusadamente sexual, um funk de baixíssimo calão dentro de uma escola, fato que deixa qualquer espectador de boca aberta, em estado de choque, e pensando como Tico Santa Cruz: “este não é futuro que quero para minha filha.”
            A postagem do blog de Tico Santa Cruz gerou discussões ardentes no twitter. Todos indicavam culpados (lembrando que a culpa está em cada um de nós) e tentavam apresentar soluções para evitarmos a reprodução de cenas tão degradantes no futuro. Acusações e discursos iam e vinham, todos traziam uma resposta ou uma afirmação, porém o que me ficou tanto do debate no twitter quanto da leitura da postagem no blog de Santa Cruz, foram as indagações dos internautas: Onde isso tudo vai parar? E as crianças? E os jovens? Essas perguntas não obtiveram respostas; apenas constatações de que vivemos num planeta perdido, onde os valores são cadáveres em veloz decomposição. Confesso que dormi pessimamente esta noite de tanto pensar nisso.
Desde a minha adolescência, tive a impressão de que o mundo, idealizado como um espaço hospitaleiro, parecia um castelo de areia cada vez mais próximo do tsunami das maldades humanas, e, como todos os que participaram do debate, trouxe e ainda trago mais dúvidas e trevas do que otimismo e luz em minha visão de futuro. Lamento dizer, mas a luz no fim do túnel está apagada, porém como afirma a canção “Combate”, novo hit da banda Detonautas, não podemos nos render. É preciso reacender a chama.
Por isso, nesse instante de trevas, continuo a escrever, insisto na arte, e relembro, nesse aniversário do meu blog (meu espaço artístico-virtual fez um mês hoje, dia 23), um poema que escrevi quando tinha 16 anos, publicado em meu segundo livro “Promessas desfeitas – Quando os sonhos morrem e o poeta sobrevive” (1997). Tenho, hoje, o dobro da idade e as críticas e indagações ainda são as mesmas (só trocaria “Tem professor confundindo ditadura / Com sala de aula” – que era mais próprio pra minha época de ensino mais tradicional – por “Tem educador confundindo sacanagem / Com espontaneidade” – mais inserido a nossa ‘nova era’ e ao terrível vídeo que me tirou o sono – como professor e escritor, fiquei duplamente insone). Pra ser lido ao som de “Vivendo e não aprendendo”, do Ira!, “Estudo errado”, de Gabriel, o Pensador, “Boquiaberto”, de Biquíni Cavadão, e “Ensaio sobre a cegueira”, de Detonautas Roque Clube (faixa sinistra do CD “O retorno de Saturno”):  

Dezesseis anos

(Lembranças da revolta)

            Tem velho confundindo paternidade
            Com sexo livre
            Tem sujeito confundindo liberdade
            Com indisciplina
            Tem otário confundindo candidato
            Com ator de televisão
            E tem gente confundindo opinião
            Com o bar da esquina.

            De que adianta pensar no futuro
            Se tudo é escuro do lado de fora?
            De que adianta ter dezesseis
            Se continuo a não entender
            Por que nada sei?

            Tem professor confundindo ditadura
            Com sala de aula
            Tem artista confundindo cultura
            Com filme pornô
            Tem cozinheiro confundindo comida
            Com forno microondas
            E tem aluno confundindo vida
            Com toda essa loucura.

            De que adianta um bom futuro
            Na sala de aula
            Em comparação ao escuro
            Que fica na alma?
            De que adianta saber
            Se nada sei? 


segunda-feira, 22 de agosto de 2011

Poema vascaíno: As conquistas de Evair

O poema que posto hoje é uma versão revisada de um poema, inédito em livro, escrito em 1997, em homenagem ao meu amigão Ronaldo Brechane e ao Clube de Regatas Vasco da Gama, meu time de coração que, ontem, 21 de agosto, comemora 113 anos.
Durante a comemoração do terceiro título brasileiro do Gigante da Colina sobre o Palmeiras, em 1997, Ronaldo e eu tomamos um porre homérico, mais longo que a Ilíada e a Odisséia juntos. Quando estou bêbado e feliz, tenho costume de pedir aos meus amigos um tema (ou dez palavras) pra construir um poema – prova drummondiana de que a escrita poética requer 10% de inspiração e 90% de transpiração. Ronaldo, torcedor vascaíno 90 vezes mais fanático que eu – de cada dez palavras que saem dos lábios de meu amigo, uma é Vascão ou uma variação similar da palavra citada -, citou como tema o Vasco da Gama (claro!) e me deu nove palavras ligadas ao time carioca (essas foram mantidas em todas as revisões, em respeito ao desejo e fanatismo do amigo) e uma outra, abstrata, vascaína pra ele, mas muito além dos campos de São Januário: a palavra amor.
Ronaldinho feliz da vida com seu Vascão
Como conhecedor das aventuras e desventuras do meu amigo naquela época, busquei construir um poema meio épico no objetivo de exaltar, paralelamente, a recente conquista do time-tema solicitado e a trajetória amorosa de meu amigo Ronaldo. Destaco também que Baco é o deus grego da loucura, da folia e da embriaguez, por isso ganhou o status de deus-guia da epopeia fragmentada (e meio bêbada rs) que construí. Já “Evair”, pseudônimo dado ao meu amigo Ronaldo, foi inspirado no companheiro de ataque do ídolo Edmundo na seleção vascaína de 1997. Pra ser lido ao som de “Eduardo e Mônica”, de legião Urbana, “Léo e Bia”, de Oswaldo Montenegro, “Julho de 83”, de Nenhum de Nós, e claro, pelo Hino do C. R. Vasco da Gama.

As conquistas de Evair (Uma história de amor de torcedor em 1997)

Nos idos de 1997,
Evair possuía duas paixões:
Luísa, a musa-prima de suas emoções,
e o Vasco da Gama, seu time de coração,
mas Luísa é eternamente do primo Basílio
como nos lembra o escritor Eça de Queirós
e futebol é uma caixa de surpresas;
nem sempre a Cruz de Malta é campeã...
Então passa-se o dia, vem outra noite
e... pronto! Já é de manhã!
O tempo amadurece idílios portugueses que esvoaçam.
Evair negou duas coisas:
a derrota no Campeonato Estadual daquele ano
e os sonhos de sua vizinha Natália
de invadir o quarto dele e lhe dizer: “por que não eu?”
como numa antiga canção da Kid Abelha
que Evair nunca escutara (Evair nunca entendeu...)
Então é outra festa na cidadezinha onde morava,
coincidindo com as vitórias sucessivas
do Gigante da Colina no Campeonato Brasileiro,
o vascaíno empolgado exaltava Baco
enquanto bebia uma, duas caipirinhas
e o coração pedia mais
e Luísa estava longe               longe demais
e Natália estava ali
bem pertinho de Evair...
Um beijo na boca,
uma troca de afetos,
o fútil e passageiro se tornando eterno;
Evair profetizou muitas coisas erradas
- sempre negar sua vizinha foi a profecia mais falha -
Evair é humano, é comum se enganar
e Natália, a musa outrora rejeitada,
transformou-se em sua deusa particular!
Um abraço,
um laço,
Natália e Evair,
Evair e Natália,
caminho
atalho
pro inesperado amor...
Então é mais um título no Maracanã,
o Vasco é tricampeão brasileiro,
Edmundo é artilheiro
e Evair, nosso enamorado torcedor,
é duplamente vencedor.
Vamos, vamos todos cantar de coração
Evair e Natália,
Natália e Evair,
a Cruz de Malta e a paixão!

domingo, 21 de agosto de 2011

Poema Voyeur: Delírios de domingo

"Somente os instintos sobrevivem num domingo" (Biquíni Cavadão)

É sempre meio perturbador acordar numa manhã cinza de domingo, sozinho... Nesse momento lembrei-me de um poema escrito para o livro “Eu e outras províncias” (2008), é a quarta e última parte do grupo de poemas batizado de “Voyeur”. Dedicado a todos os sonhos sensuais que sobrevivem ao melancólico céu de domingo. Pra ser lido ao som de “Acrilic on canvas”, de legião Urbana (CD Dois):

Delírios de domingo

Meus olhos voam com os pássaros que invadem tua janela
pra cantar músicas alegres em teu ouvido
nestas tardes tristes de domingo.

Meus olhos escorregam pelo teu chuveiro 
como as gotas d’água que banham tuas partes íntimas
nestas tardes quentes de verão.

Meus olhos alimentam-se à tua mesa
excitados com teu apetite voraz
nestas tardes tensas de fim de ano.

Meus olhos vivem pela tua vida
enquanto minha vida anoitece
nesta ardente dependência de outros corpos. 




Solidões compartilhadas: Mayara Silva e sua crônica ecológica

No próximo mês, em 18 de setembro, ocorrerá um evento em Água Quente, distrito de Teresópolis/RJ, chamado “Trilhão”. Há duas semanas atrás, as queimadas no morro do distrito foram mais intensas e minha aluna Mayara Silva, do 8.º Ano da E. M. Alcino Francisco da Silva, me lembrou da crônica que escrevera em uma de minhas aulas:
- Viu, professor, eu não te disse? Já começaram a queimar o morro por causa do “trilhão”!
Mayara Silva é uma aluna, ao mesmo tempo, agitada e genial, é extremamente perspicaz e se orgulha de pentelhar de forma inteligente todo professor que entra na sala para dar aula, ou seja, tem uma personalidade única e talentosa. Todos esses fatores fazem dela uma excelente escritora, capaz de denunciar com sagacidade e emoção as violências do homem com a natureza, com os outros e consigo mesmo. Os morros que queimam a nossa volta (lembro-me não só dos morros de Água Quente, em Teresópolis; os da Subida da Torre, em Valença/RJ, também são constantemente violentados pelo homem) são protestados pela cronista Mayara Silva, mais um talento adolescente que compartilha da solitária causa coletiva da denúncia-arte por um ambiente melhor, por um ser humano melhor.
Leiam a obra-prima dessa genial escritora e pensem o quanto as queimadas acinzentam os valores humanos diante da natureza:

Na época do “trilhão”

       Em setembro de 2010, um infeliz pôs fogo em um pedacinho de mato que, com a ajuda do vento, foi se expandindo até se tornar um pedação. E foi um pedação mesmo! Da minha casa, fiquei observando o pasto queimar. E me perguntei: pra que fazer isso?
       Eu simplesmente nunca entendi o fato de as pessoas fazerem isso. Talvez tenham esse hábito rotineiro considerando o fogo como uma solução rápida e eficiente para a limpeza de pastos, quintais, lixo, ou por imprudência mesmo. Mas será que eles não sabem que as queimadas podem secar nascentes da água, provocar prejuízos irreparáveis à fauna e flora, fugir do controle, destruir imóveis e instalações e até matar animais? Eles não sabem ou fingem não saber?
       Aqui, onde moro, não deveria ser, mas é ‘normal’ fazerem queimadas. Principalmente em agosto e setembro, época do “trilhão”, como chamamos o evento que acontece anualmente aqui em minha região, dos “trilheiros” (motoqueiros), quando queimam ainda mais para fazer trilhas para passar, sem pensar nos bichinhos, na mata, sem pensar em nada...
Mayara Silva (8.º B da E.M.A.F.S)

sábado, 20 de agosto de 2011

Verse essa canção: "Ninguém é de ninguém" (versão twitter)

Essa é uma (sub)versão da música "Ninguém é de ninguém", do CD "Sexo, drops e rock'n roll" (1990), de Leo Jaime. É uma homenagem ao cantor, autor de sucessos como "A fórmula do amor" (recentemente regravada pelo compositor numa versão mais moderna e bastante vibrante). Devido a sua aparição em programas de sucesso como o "Amor e Sexo", Leo Jaime sofre no Twitter com intimações de seguidores que querem ser seguidos por ele, como se liberdade no amor pudesse ser negociada em atração mútua forçada. Serve pra lembrarmos que nós, fãs, no Twitter, podemos ser seguidores ativos, mas jamais perseguidores possessivos (a doença do ser social surge na mania do ter como se pessoas fossem moedas de troca): 


Eu te amo não é dar bom-dia
Aprender não é só ir na escola
E ganância não é ambição
Ter bondade não é dar esmola, não

            Manhã de sábado quente, a tela do computador queima meus olhos insones. Uma resposta em um de meus twitters: “Sou tua fã. Te amo. Siga que eu te sigo.”, sem erros de grafia, sem ultrapassar os limites de caracteres, sem sentido, sem ao menos um por favor. Eu falava sobre o vento e sua leveza, sobre o sexo e o amor e o twitter- resposta nada me respondia; era uma nova incógnita sem valor.

Ter comida não é ter dinheiro
Ter dinheiro não é ter sucesso
Ter sucesso não é ter prestígio
Ter prestígio não é ter comida

            A imagem dos olhos dela no perfil mostram fome de seguidores, ganância pelo vazio. “Sou tua fã. Te amo. Siga que eu te sigo.”, mais uma vez leio o twitter que não me faz sentido. Jóias no pescoço dela – ela me quer como um novo tesouro, pobre menina rica e vazia. É muito magra, seu perfil me relembra vítimas de anorexia – o prato dela seria o meu eu virtual a seguindo todos os dias.  

Ter amor não é ter companhia
Se casar não é se aposentar
A beleza não é vaidade
E histeria nunca foi coragem

            Ela diz que me ama, diz que até me seguiria... Esse momento seria lírico se não tivesse a subordinativa: “Siga que eu te sigo.”; ah! ela não me ama; só quer companhia. Seria bela se apenas me deixasse vê-la, seria sublime se não me prendesse numa armadilha de tela de computador. O twitter dela me grita uma estranha histeria: ela quer meu perfil em sua estante virtual, sua coragem é uma ousada covardia diante do consumismo banal.

Desespero não é covardia
Solidão não é liberdade
Alegria não é gargalhada
E a verdade não é só verdade

            Ah, e a covardia dela é calma para gritar sem desespero, sua liberdade me prende na sua rede de solidão possessiva, sua gargalhada sincera no retrato impulsivo; “Siga que eu te sigo” – sua alegria possui um triste perfil, suas verdades ocultam uma mentira ruim.
           
Peraí, eu não sou seu
E ninguém nunca foi de ninguém
Peraí, eu disse peraí
Querer muito não é querer bem

            Quem disse a ela que sou seu animal de estimação virtual, quem disse a ela que pareço com uma louça do mercado municipal, quem disse a ela que ela podia me dizer: “Siga que eu te sigo” como se chumbo trocado fosse armistício? Seguir não é me perseguir, entenda bem! Não sigo os umbigos alheios; prefiro seguir no coletivo, distanciado da sua conexão fatal, escolher o outro caminho, mais real. O sorriso desse sábado me chama em algum horizonte infinito e os lábios dos raios solares seguem meu corpo, sem cobrança, em liberdade, já posso sentir! Adeus, perseguidora do twitter que não vou seguir!

Solidões compartilhadas: Max Vitor e Laura Roberto em momentos brilhantes

Há muitos escritores talentosos que passam pelas nossas redes sociais e nem nos damos conta. Destaco aqui dois amigos escritores, em momentos de solidões compartilhadas:



"[...] E achava que tudo estava bem, até ver um casal de Idosos com as mãos dadas no metrô e pôs-se chorar copiosamente, pensando consigo: Existe mesmo o Amor! Isso era tudo o que precisava [...]
(Laura Roberto, via facebook)


Sinestesia (ou apenas mais um blues)


O azul tem gosto de céu.

(Max Vitor, entre as artes plásticas e o mais intenso lirismo da palavra escrita)

Prosa poética em homenagem aos historiadores: A agulha e a História

Em homenagem ao Dia do Historiador, comemorado no dia 19 de agosto, posto a prosa poética "A agulha e a História", escrita após visita a diversos museus no Rio de Janeiro/RJ e publicada em meu quarto livro "O último adeus (ou o primeiro pra sempre)". Pra ser lida ao som de "Múmias", do Biquíni Cavadão, e "Missionários", de Uns e Outros:


A agulha e a História

            Perdido entre estátuas de Napoleão, Tiradentes, Hitler e Getúlio Vargas, ele se sente tão pequenino, sozinho como uma agulha no palheiro.
            Loucos, mártires, ditadores, sonhadores, sucessos da mídia dos cartéis dos cartéis dos livros de História parecem deuses entre mortais, uma sopa de ideias e ideais que consome os seus consumidores, traz um marketing espetacular, alimenta e gera efeitos colaterais. Enquanto a agulha busca ser homem, ter um nome, um rosto, uma alma, uma novidade para os seus olhos cansados de impérios, forcas, preconceitos e suicídios induzidos.

sexta-feira, 19 de agosto de 2011

Diário de um fã-nático solitário: tudo por um show do Biquíni Cavadão


18 de agosto
05:45 – Arrumo a mochila e me preparo para um dia longo: de casa pra escola, da escola em Teresópolis pra viagem a Valença, de Valença a Ipíabas, Ipíabas com Biquíni Cavadão, tudo por um show!
06:33 – Carona pra escola, a manhã começa fria, mas promissora, “só quem sonha acordado vê o sol nascer”.
07:20  às 10:40– Entrando na sala pra dar aula – Assunto: Arcadismo. Associo a música “Descivilização” às estéticas árcades. Informo aos alunos que faltarei amanhã (direção já está ciente), pois tenho horas-aula sobrando na casa e usarei pra ir ao show do Biquíni Cavadão, banda-assunto desta aula. “Yeah, o professor é do rock! “ – os olhos dos alunos dizem. Aviso que amanhã eles não ficarão à toa – deixei atividade-trabalho com canção da Paula Fernandes valendo ponto. “Ah, o professor é do rock, mas não perdoa!” – os olhos deles sabem que não sou tão irresponsável assim.
11:00 – Ganho carona pra rodoviária; estou com sorte.
12:00 às 14:05 – Dentro do ônibus de Teresópolis para o Rio de Janeiro. No meio da viagem, um engarrafamento sonolento me influencia um breve cochilo. Acordo na rodoviária, o mp3 ainda ligado toca “Mesmo assim”, do Biquíni. Meu vizinho de viagem é um senhor de meia-idade, que se despede me desejando “Boa sorte!”. Ai, ai, será que falo acordado sobre meus desejos quando estou dormindo? Por 5 minutos, perco o 14:00 para Valença. O jeito é esperar o próximo.
15:15 às 18:45 – Dentro do ônibus do Rio de Janeiro para Valença. Durante a viagem, meu irmão me liga e me informa que a van que sairia de Valença para o show do Biquíni Cavadão em Ipíabas foi cancelada. Ai, ai. Logo depois, o irmão da Ju me informa que também não iria. Ai, ai, ai. No mp3, toca “Impossível”. Impossível eu voltar atrás: digo pra mim mesmo que vou pro show de qualquer jeito!
18:45 às 22:45 – Em Valença, dou uma pausa pra recarregar as baterias do celular, da máquina fotográfica e as minhas. Como diria um vizinho do bar do Tio Jorge, “vamo que vamo”. Visito a Ju, passeio com o cão labrador Ramone (ator de meu ciple-conto “Falsa expectativa”, parto para a rodoviária: de Valença para Barra do Piraí, de Barra do Piraí pra Ipíabas, estou sozinho, mas estou comigo, “não quero me desapontar”, ah! Cheguei em Ipíabas!
22:45 às 0:40 – Assisto ao show de uma banda local (bem razoável os caras, ainda mais prejudicados pela aparelhagem de som irregular), cumprimento alguns conhecidos (morei, trabalhei e fiz faculdade em Barra do Piraí há alguns ‘séculos’ atrás), Pinheiro e sua esposa, ambos de Valença, passam por mim. Ele diz: “Não avisei que te encontraria?”, rs, não estou tão sozinho assim; continuo comigo e agora com eles. Vou para a frente do palco principal. O apresentador anuncia que, dentro de instantes, chegaria ao palco o Biquíni Cavadão!
18 para 19 de agosto
0:40 até altas horas da madrugada (ou o tempo-momento de uma eternidade em meus olhos fascinados) –  Com vocês, Biquíiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiniiiiiii CavadÃO! A banda faz um show memorável, intercalando músicas novas (“É dia de comemorar” e outra, composta com o vocalista do Fresno) e muitos sucessos (“Em algum lugar do tempo”, “Vento, ventania”, “No mundo da lua”, “Sexta-feira”, “Tédio”, “Timidez”, “Zé ninguém”, etc). Plateia vibra com o show, pulo, canto, ah!eu estou vivo! Vivo, suado, fascinado. Tudo vale a pena quando a alma e o show do Biquíni Cavadão não são pequenos! Pinheiro registra fotos minhas durante o show; hipnotizado com o espetáculo, só percebi o que ele fazia após muitos flashes. Fim de show, vou ao camarim, tieto o vocalista Bruno Gouveia, quase esqueço minha máquina digital lá, fã-nático completo!
19 de agosto pleno
Altas horas da madrugada até 05:50 – Mofando na rodoviária pra pegar o ônibus pra voltar a Valença; não lamento, o sorriso estampado no rosto. Cada último show do Biquíni Cavadão parece o primeiro. O sol ri no horizonte... Amanhece!