domingo, 24 de julho de 2011

Amy Winehouse e o fiasco da hipocrisia pós-moderna



Hoje a maldição musical dos 27 anos fez mais uma vítima: Amy Winehouse se juntou ao grupo dos jovens rebeldes sem causa que definiram, como diz Carlos Drummond, “sua dis-solução”. Antes dela, Kurt Cobain, Jimi Hendrix, Jim Morrison, Janis Joplin, Brian Jones e tantos outros sucumbiram com a mesma idade de Amy, em momentos diferentes, mas com personalidades escandalosas e tendências suicidas bem próximas às da cantora inglesa.
Porém a desventura final de Amy Winehouse merece destaque por sua época: a cantora aprontou todas (drogas, prisões, etc) numa época em que os popstars fazem campanha por um mundo colorido em que as composições são feitas a base de guaraná e doces M&M’S. Amy sempre foi meio visceral , mostrando a farsa oculta por trás do admirável mundo novo careta construído com caras de pau e tintas de hipocrisia, e, ao destruir-se, desmoronou também com ela o universo perfeito e saudável inventado pelas mídias e ‘falsiedades’ pós-modernas. Sua imagem destrutiva, ‘persona non grata’ declarada pelos Estados Unidos da utopia, revelou mais uma vez o ambiente frágil do mito consumista; um ambiente hostil, rico em drogas pesadíssimas como crack e falsamente confortável para a juventude faminta por identidade num mundo que prega que, como nos lembra Humberto Gessinger e George Orwell, ‘somos todos iguais, uns mais iguais que os outros’.
Como diz a tradução de ‘Rehab’, composição da própria Winehouse, “Tentaram me mandar pra reabilitação / Eu disse "não, não, não" / É, eu estive meio caída, mas quando eu voltar / Vocês vão saber, saber, saber”. Adeus, Amy, durma bem e acordem, jovens, antes que outros os transformem em mais um defunto efêmero e vendável, num mundo onde se prega a loucura consumista e as ilusões sem fundamento, num mundo onde não há reabilitação.

A Amy Winehouse e tantos outros poetas malditos dedico o poema de minha autoria “Benditos sejam os malditos”, originalmente publicado no extinto jornal valenciano “Correio do Vale” e a ser republicado em um dos meus próximos livros-projetos, que eu singelamente intitulei como “Foda-se e outras palavras poéticas”:

Benditos sejam os malditos

“Alcançai para mim
A Hospedaria dos Jamais Iluminados”
Mário de Andrade, “Religião”

I

Benditos sejam aqueles que fazem luz na escuridão.
Benditos sejam aqueles que não gritam para serem ouvidos.
Benditos sejam os malditos que não têm ouvidos
para escutar os que mal lhe dizem.
Benditos sejam os loucos, os tortos, os perdidos
que seguem seus caminhos sem fins lucrativos
sem olhar para trás.
Benditos sejam os vivos que sobrevivem famintos,
aceitam os sacrifícios
e não se julgam Jesus.
Benditos sejam os incompreendidos
que compreendem os tolos que não aceitam as suas razões.

- Benditos sejam os malditos
que aceitam as suas maldições.

II

Vândalo Rimbaud que fez uma temporada no inferno,
amaldiçoadas sejam todas as flores do mal de Baudelaire

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